
Cette tribune signée par Eder Fonseca propose une analyse approfondie des relations entre le Brésil et le continent africain, en mettant en lumière les fondements historiques, culturels et politiques de ce lien singulier, ainsi que les perspectives de coopération stratégique dans l’espace de l’Atlantique Sud. À travers une approche à la fois diplomatique et prospective, l’auteur invite à dépasser l’héritage mémoriel pour construire un partenariat structurant et durable entre les deux rives.
Le texte est disponible en version française et en version portugaise (voir plus bas), afin de toucher un public élargi au sein des espaces francophone et lusophone.
Fondements historiques et culturels d’une relation singulière
Alors que le Brésil vient de célébrer, le 20 novembre, la Journée de la Conscience Afro-brésilienne, une question demeure : quelle est la véritable nature de la relation entre le Brésil et l’Afrique ? Les liens sont profonds et structurants. Le peuple africain constitue l’une des trois matrices fondatrices de la société brésilienne, aux côtés des peuples autochtones et des Portugais. Le métissage, le syncrétisme et les manifestations culturelles afro-brésiliennes — de la gastronomie aux pratiques religieuses — témoignent d’une influence durable et indissociable de l’identité nationale brésilienne.
De l’héritage partagé à la coopération stratégique
Toutefois, l’histoire, aussi riche soit-elle, ne suffit pas. L’enjeu contemporain consiste à transformer cet héritage commun en relations politiques, économiques et géostratégiques concrètes. Le champ des opportunités est vaste, mais demeure encore insuffisamment exploité, souvent en raison d’incohérences stratégiques observées de part et d’autre de l’Atlantique Sud. Le défi consiste à passer d’une relation essentiellement symbolique à un partenariat structuré et durable.
Le tournant diplomatique brésilien et les indépendances africaines
Depuis l’Indépendance, le Brésil est longtemps resté tourné vers lui-même, concentrant sa politique extérieure sur ses voisins immédiats, notamment les tensions avec l’Argentine dans la région du Río de la Plata. Les autres continents, à l’exception de l’Europe, furent progressivement marginalisés, y compris l’Afrique, malgré l’héritage douloureux de l’esclavage.
Cette orientation perdura jusqu’aux années 1970, lorsque le chancelier Azeredo da Silveira impulsa une inflexion majeure de la politique étrangère brésilienne. Le Brésil adopta alors une vision globale du monde et soutint activement les processus d’indépendance des anciennes colonies africaines. Souvent parmi les premiers États à reconnaître ces nouvelles nations souveraines, il leur offrit un appui politique significatif et symboliquement fort.
Cette ouverture ne se limita pas à l’Afrique lusophone. Lors de la visite d’État au Sénégal en 1974, le président Léopold Sédar Senghor reçut un hommage appuyé du chancelier brésilien, auquel il répondit par un discours émouvant saluant les liens humains et culturels entre le Brésil et l’Afrique. À cette occasion, la diplomatie brésilienne chercha à s’adapter à la réalité nouvelle d’un continent africain souverain et en pleine affirmation.
Une relation marquée par des avancées inégales
Malgré ces progrès, la relation Brésil-Afrique demeure marquée par une certaine discontinuité. La présence de l’Angola, grande nation lusophone de l’autre côté de l’Atlantique Sud, a favorisé des investissements brésiliens, notamment dans les secteurs énergétique et pétrolier. Néanmoins, la présence brésilienne sur le continent africain est restée globalement limitée — et réciproquement.
Au début des années 2000, un nouveau dynamisme diplomatique s’est traduit par l’ouverture de plusieurs ambassades brésiliennes en Afrique. Cependant, cette relance ne s’est pas encore accompagnée d’une stratégie globale et cohérente dans les domaines commercial, technologique ou sécuritaire. Cela constitue une occasion manquée, tant le Brésil et l’Afrique représentent deux ensembles territoriaux et démographiques majeurs, appelés à jouer un rôle central dans l’économie mondiale de demain.
Vers un partenariat structurant dans l’Atlantique Sud
L’Afrique lusophone — Cap-Vert, Angola, Guinée-Bissau, Mozambique et São Tomé-et-Principe — rassemble environ 77 millions d’habitants partageant la langue portugaise avec le Brésil, qui compte plus de 210 millions d’habitants. Cet espace linguistique et culturel constitue un atout stratégique majeur. Plus largement, le continent africain, avec ses 1,3 milliard d’habitants et une croissance démographique soutenue, représente un partenaire incontournable pour les décennies à venir.
Le Brésil et l’Afrique partagent une histoire de domination coloniale, mais aussi une compréhension commune des défis du développement. Il ne s’agit pas de hiérarchie, mais d’égalité, de respect mutuel et de coopération. Nations riches en ressources humaines et naturelles, elles disposent de tous les atouts pour construire un partenariat équilibré et ambitieux. Les liens entre Brésiliens et Africains sont profondément ancrés dans leur identité collective ; il appartient désormais aux responsables politiques, économiques et diplomatiques de transformer ce potentiel en réalité.
Le moment est venu de tourner résolument le regard vers l’autre rive de l’Atlantique Sud et de faire de cette relation historique un partenariat stratégique au service d’un avenir partagé.
As Relações Brasil–África: um potencial estratégico por concretizar
Este artigo de opinião, assinado por Eder Fonseca, propõe uma análise aprofundada das relações entre o Brasil e o continente africano, destacando os fundamentos históricos, culturais e políticos deste vínculo singular, bem como as perspetivas de cooperação estratégica no espaço do Atlântico Sul. Através de uma abordagem simultaneamente diplomática e prospetiva, o autor convida a ultrapassar o legado memorial para construir uma parceria estruturante e duradoura entre ambas as margens.
O texto encontra-se disponível em versão portuguesa e em versão francesa , com o objetivo de alcançar um público mais amplo no espaço lusófono e francófono.
Fundamentos históricos e culturais de uma relação estruturante
No contexto da celebração, no passado dia 20 de novembro, do Dia da Consciência Negra no Brasil, impõe-se uma reflexão de natureza essencial: qual o alcance e a profundidade da relação entre o Brasil e o continente africano?
Os vínculos que unem estas duas realidades são de natureza histórica, cultural e humana, assumindo um carácter estruturante. O contributo africano constitui uma das três matrizes fundadoras da sociedade brasileira, a par dos povos indígenas e dos portugueses. A mestiçagem, o sincretismo e as diversas expressões culturais afro-brasileiras — da gastronomia às práticas religiosas — configuram uma herança viva, indissociável da identidade nacional brasileira.
Da memória partilhada à ação estratégica
Não obstante a densidade desta herança comum, importa reconhecer que a memória, por si só, não é suficiente para responder aos desafios contemporâneos. Torna-se imperativo transformar este legado histórico em instrumentos concretos de cooperação política, económica e geoestratégica.
O potencial existente é significativo, mas permanece, em larga medida, por concretizar, em virtude de insuficiências estratégicas observadas em ambas as margens do Atlântico Sul. Neste sentido, a transição de uma relação predominantemente simbólica para uma parceria estruturada, previsível e sustentável constitui um desígnio prioritário.
A afirmação de uma diplomacia global: o Brasil e as independências africanas
Durante um longo período após a sua Independência, o Brasil adotou uma postura predominantemente voltada para o seu espaço regional imediato, concentrando a sua ação externa nos equilíbrios sul-americanos. Consequentemente, outras regiões, incluindo o continente africano, foram relegadas para segundo plano, não obstante os laços históricos existentes.
Esta orientação conheceu uma inflexão determinante a partir da década de 1970, sob a égide do chanceler Azeredo da Silveira, que promoveu uma reconfiguração substantiva da política externa brasileira. O Brasil passou então a afirmar-se como um ator empenhado na construção de uma ordem internacional mais inclusiva, apoiando ativamente os processos de independência das antigas colónias africanas.
Ao reconhecer, de forma célere, diversas novas nações soberanas, o Brasil contribuiu para a sua afirmação no sistema internacional, reforçando laços de solidariedade histórica e política.
Esta dinâmica estendeu-se para além do espaço lusófono. Aquando da visita de Estado ao Senegal, em 1974, o Presidente Léopold Sédar Senghor foi objeto de reconhecimento por parte das autoridades brasileiras, tendo sublinhado, na sua resposta, a profundidade dos laços históricos e culturais entre o Brasil e África. Este momento simboliza a vontade de adaptação da diplomacia brasileira à realidade emergente de um continente africano soberano e em afirmação no plano internacional.
Descontinuidades e desafios de uma relação em construção
Não obstante os progressos registados, a relação entre o Brasil e África tem sido marcada por dinâmicas de intensidade variável. A cooperação com países como Angola, em particular nos setores energético e petrolífero, evidencia o potencial existente, mas não esgota o campo de possibilidades.
Persistem limitações estruturais, nomeadamente ao nível da densidade das relações económicas, tecnológicas e institucionais, que têm condicionado uma presença mais robusta e contínua de ambas as partes.
Os esforços empreendidos no início do século XXI, designadamente através do reforço da rede diplomática brasileira em África, constituíram sinais positivos. Todavia, tais iniciativas carecem ainda de consolidação no quadro de uma estratégia integrada e de longo prazo.
Para uma parceria estratégica no espaço do Atlântico Sul
O espaço da África lusófona — que integra Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe — representa um universo de cerca de 77 milhões de cidadãos, unidos pela língua portuguesa, em complementaridade com os mais de 210 milhões de brasileiros. Este património linguístico comum constitui um vetor estratégico de cooperação no seio da CPLP e para além dela.
Num plano mais amplo, o continente africano, com mais de 1,3 mil milhões de habitantes e uma dinâmica demográfica sustentada, assume-se como um ator incontornável no sistema internacional contemporâneo e futuro.
Brasil e África partilham não apenas uma história de dominação colonial, mas também uma compreensão convergente dos desafios associados ao desenvolvimento sustentável, à inclusão social e à valorização dos recursos humanos. Neste quadro, a relação entre ambos deve assentar em princípios de igualdade soberana, respeito mútuo e benefício recíproco.
As condições estão reunidas para a edificação de uma parceria estratégica ambiciosa, ancorada em interesses comuns e numa visão partilhada do futuro. Compete agora aos decisores políticos, económicos e diplomáticos traduzir este potencial em iniciativas concretas e estruturantes.
É, pois, chegado o momento de afirmar o Atlântico Sul como um espaço de convergência estratégica e de cooperação reforçada, ao serviço de um desenvolvimento partilhado e de uma ordem internacional mais equilibrada.
Eder Fonseca
Oficial do Ministério Público do Estado de São Paulo
Engenheiro diplomado pela Universidade Santa Cecília de Santos e pelo INSA de Toulouse. Estudante de Geopolítica das Américas